Frases assinadas

Coisa engraçada. Quem já não vagou de página em página, blog em blog em busca de uma crônica, um texto, poesia, frase, uma palavra que seja, que pudesse traduzir de forma exata (se é que isso é possível) o que se está vivendo ou sentindo?

E o pior é que o resultado quase nunca é plenamente satisfatório.

Me veio então a conclusão fascinante (risos) de que todos guardamos palavras que não temos coragem de colocar pra fora. Será que é o reflexo do medo de deparar ou espantar-se com a própria verdade, sem a desculpa de que foi o “fulano de tal” que escreveu?

Acho que os leitores do Giz já perceberam que as escritoras desse tão querido blog andam um pouco ausentes. E eu só espero que o motivo seja por que como falou tão bem Drummond, ousamos sair da cadeira de expectadores por um instante e ser protagonistas da própria história.

Então, vamos lá. Desafio a todos que lerem esse post a deixarem registrado nos comentários a frase que hoje te revela!

Para encorajar, aqui vou eu:

“Sei que a Força que impulsiona as minhas asas nunca tem fim… cria e recria. E quando penso que é fim… é só a hora da “muda” que chegou…”

Alice Martins

Drummond

Hoje não escrevo…

Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.

Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.

O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara-de-pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego – às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.

Ah, você participa com palavras? Sua escrita – por hipótese – transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma idéia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.

Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.

E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia… explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando…

Então hoje não tem crônica.


Carlos Drummond de Andrade

É da insatisfação que a letargia provoca… que o extraordinário pode acontecer.
A isso também se dá o nome de felicidade.

O sobrenome?

– Coragem.


Lice

Ladrilhar

Um cantinho pra se esconder
Uma caixinha com tampinha
Pode até ser uma mão em forma de conchinha

Pra ficar guardado
E se sentir cuidado
Espantar a solidão

Se “vida” rima com “lida”
Então há que se lutar
E não que fraquejar

Tem que se criar coragem
Enxergar mais cintilante
Ver no caminho pedrinhas de brilhante

Ladrilhar
Tropeçar
Tapear

a tristeza que insiste
a lagrimazinha que persiste
Descer a rampa a rolar


Mas se o sorriso resiste
Ela então desiste

e adormece nos lábios que estão a se abraçar.

Lice