A melancolia de Florbela

Talvez…

“A esta hora branda d’amargura,

A esta hora triste em que o luar

Anda chorando, Ó minha desventura

Onde estás tu? Onde anda o teu olhar?

A noite é calma e triste… a murmurar

Anda o vento, de leve, na doçura

Ideal do aveludado ar

Onde estrelas palpitam… Noite escura

Dize-me onde ele está o meu amor,

Onde o vosso luar o vai beijar,

Onde as vossas estrelas co fulgor

Do seu brilho de fogo o vão cobrir!

Dize-me onde ele está!… Talvez a olhar

A mesma noite linda a refulgir…”


Há momentos na vida que certa dose de dramaticidade é fundamental para não pirarmos e não renegarmos nossa veia humana.. o humano falha, o humano sofre… e, demonstrar um sentimento pela poesia é mais digno do que entregarmos nossa alma no silêncio.

Como um dia eu disse pra Lice… “se é para ser arte, que seja boa, mesmo que sofrida!”

E isso fez Florbela, com sua poesia, impõe sua alma, numa arte melancolicamente deliciosa e dramática “até o último fio de cabelo”.

O tema melancolia é muito usado nas Artes… muitas são as obras que retratam o sentimento melancólico, acredito que numa forma de fuga, em que a dor é arrancada através da materialização… o exemplo é o expressionista E. Munch, famoso pela sua tela “O grito”, também produz essa obra, “Melancolia”.


Quem me conhece sabe que eu não sou dramática, mas adoro o gênero… rs, mas acho que um ser humano que conhece Florbela já se identificou em algum momento com alguma citação.


Entao, vamos à Florbela Espanca!

“Quem me dera encontrar o verso puro,

o verso altivo e forte, estranho e duro,

que dissesse a chorar isto que sinto!”

Poetiza portuguesa que viveu no inicio do século passado, filha bastarda, “vítima” de vários casamentos mal-sucedidos, estudou Letras e Direito. Sua poesia recorre sempre a temas de solidão, desencanto, mas sempre com ternura e desejo, refletindo sua melancolia pessoal, numa linguagem passional e sensual.

Ela não se ligou formalmente a nenhum movimento literário, mas estudiosos a encaixam no Neo-romantismo…

Cegueira Bendita

“Ando perdida nestes sonhos verdes

De ter nascido e não saber quem sou,

Ando ceguinha a tatear paredes

E nem ao menos sei quem me cegou!

Não vejo nada, tudo é morto e vago…

E a minha alma cega, ao abandono

Faz-me lembrar o nenúfar dum lago

´Stendendo as asas brancas cor do sonho…

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo

E não ver nada nesse mar sem fundo,

Poetas meus irmãos, que triste sorte!…

E chamam-nos a nós Iluminados!

Pobres cegos sem culpas, sem pecados,

A sofrer pelos outros té à morte!”


Em 1930, a poetiza descobre que sofre de Edema Pulmonar, e então, ingere dois frascos de Veronal, causando sua morte, no dia em que completaria 36 anos.

“E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder… pra me encontrar…”

Acho que não preciso acrescentar nada, né?

Lu

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2 comentários sobre “A melancolia de Florbela

  1. Florbela!!! Traduz nossos momentos melancólicos de forma tão clara, né Lu? Afinal, quem não se identifica com algum dos seus poemas?
    É uma pena que talvez ela mesma não tenha se dado conta da preciosidade do dom que ela trazia e de quanto sua vida era ( e é até hoje) tão significativa.
    Ela se foi… mas as suas palavras e sentimentos se perpetuaram!
    Ah! Gostei tanto disso que vc escreveu: “…demonstrar um sentimento pela poesia é mais digno do que entregarmos nossa alma no silêncio.” Próprio de um coração transbordante de arte.

    Amo!

    P.s.: Te admiro tanto!

  2. Luiza…
    Que lindo isso!
    Amo Florbela, você sabe…E essa melancolia toda dela é fascinante. Concordo contigo sobre a melancolia estar presente em grande parte da arte. E escrever é uma forma digna de ‘expulsar’ de si a tristeza e transcrevê-la em papel. Sofrível ou não, vejo como arte!
    E que bela arte de Florbela!
    Parabéns por demonstrar dessa forma tão serena a alma dessa linda poetisa que tanto amo!
    Beijos pra você. Blog cada dia mais lindo e delicioso de se ler.
    🙂

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